Com cordões e carros de som, desfiles de samba geram debate sobre 'disputa' de espaço no carnaval de Olinda: 'Frevo está se acabando'
Blocos e foliões desfilam nas ladeiras de Olinda neste domingo de carnaval Leonardo Caldas/g1 Com desfiles volumosos, a proliferação de "paredões" e blocos ...
Blocos e foliões desfilam nas ladeiras de Olinda neste domingo de carnaval Leonardo Caldas/g1 Com desfiles volumosos, a proliferação de "paredões" e blocos com bateria de samba no carnaval de Olinda se tornou um tema polêmico. Para algumas agremiações de frevo, a passagem de grupos com carros de som e cordões de isolamento atrapalha a mobilidade e traz risco à segurança das pessoas que se espremem nas ladeiras e ruas estreitas do Sítio Histórico. O assunto veio à tona recentemente após declarações dos maestros de algumas das principais orquestras de frevo que tocam na cidade. Na visão desses regentes, que trabalham há décadas no carnaval, o impasse pode descaracterizar a festa ao dificultar a circulação das troças, tão tradicionais na folia olindense. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE De acordo com os músicos, as agremiações e os camarotes que usam som mecânico descumprem a Lei Municipal 5455/2005, que proíbe o uso de veículos automotores com caixas ou aparelhagens, em volumes acima de 60 decibéis de manhã, 65 à tarde e 50 à noite, em áreas residenciais. Para os artistas, falta fiscalização e um melhor ordenamento por parte do poder público. O g1 entrou em contato com a prefeitura de Olinda, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O maestro Oséas Leão, que comanda uma das orquestras mais requisitadas de Olinda e foi homenageado do carnaval da cidade em 2023, disse que já sofreu atrasos por causa dos "paredões" das baterias. "Eles passam uma hora ali na frente da prefeitura. A maioria das troças pequenas não vai nem para o lado de lá mais. Estão ficando pelo [Largo do] Guadalupe. Quer dizer, o frevo está se acabando", declarou. De acordo com o músico, essa disputa por espaço tem limitado a circulação das troças de frevo no Sítio Histórico. "Não tenho nada contra [bloco de samba]. Eu sou contra alguém que não deixa a gente passar, só isso. Não respeitam a orquestra, só isso. E a orquestra tem hora para começar, tem hora para terminar. Eu estou há mais de 50 anos aqui tocando aqui em Olinda, nunca deixei uma troça na rua. E vai terminar em ficar deixando na rua. Por quê? Vai passar da hora dela, que ela não tem culpa. Não tenho nada contra a escola de samba", afirmou. Medo de acidentes e "zoada" O maestro Lúcio Henrique, do Grêmio Musical Henrique Dias, disse que também já foi prejudicado e teme que o uso da estrutura com carros de som e equipamentos eletrônicos cause acidentes. "Tem um [bloco] lá que coloca na Ladeira da Misericórdia um carro pesado, e a bateria à frente. Se porventura naquele veículo falta freio, vai ter gente atropelada. Isso aí tinha que ter uma fiscalização. Eles não têm bombeiro civil que acompanha, não tem nada. É como se fosse assim: 'eu faço porque eu quero e ninguém vai tomar uma providência a respeito daquilo'. É um perigo", afirmou o maestro Lúcio Henrique, do Grêmio Musical Henrique Dias. Além disso, as paradas que os blocos fazem em pontos estratégicos dentro do Sítio Histórico prejudicam os outros desfiles. "Ao invés de seguirem o cortejo, eles param e ficam meia hora, 40 minutos na frente da prefeitura. [...] E isso atrapalha as orquestras que precisam cumprir o horário. Ela (a orquestra) precisa seguir o trajeto para deixar a troça, o clube que ela contratou, no local e seguir para outro bloco", disse. O músico contou que já precisou interromper e mudar, em duas ocasiões, o percurso de um bloco por "choques" com baterias de samba. "Não conseguimos tocar, não conseguimos passar pela frente da prefeitura. Tivemos que cortar caminho. Isso acarretou em quê? A troça perdeu público. Tem pessoas que disseram: 'eu não vou mais porque eu não consigo andar, quero ver o frevo, e a orquestra estava parada'. Não conseguia tocar por causa da zoada das baterias", disse. Orquestra de frevo em imagem de arquivo Reprodução/TV Globo Ordenamento A dificuldade se agrava, considerando a pouca quantidade de orquestras para um número grande de blocos. Isso torna a rotina dos músicos durante o carnaval uma verdadeira maratona, subindo e descendo ladeiras entre os desfiles das troças, como contou outro baluarte das orquestras de frevo, o maestro Carlos Rodrigues. "A gente pega uma hora e tem que largar a outra hora. Quando a gente se encontra com um bloco de samba, eles não têm o compromisso de horário de recolher, e a gente tem. [...] A aglomeração de pessoas em porta de casa com som ligado, que são 'paredão' ligado. Às vezes atrasa. Tem muita gente na rua que às vezes não sai nem de um lugar para a gente poder sair", afirmou. O maestro Risonaldo Verçosa foi outro músico que relatou ter sofrido atrasos por dificuldade de sair com um bloco. Além dos "paredões" de som, outro obstáculo, segundo ele, são os carros estacionados em lugares por onde as troças passam. "É perigoso para a orquestra e para os foliões, já pensou naquele empurra, empurra, sai uma briga sem lugar para você correr? Menciono também uma crítica aos carros estacionados nas principais ruas de Olinda, atrapalha muito. Essas coisas podem ser resolvidas pelos organizadores municipais", contou. O maestro Adriana Ferreira Pinto, conhecido como Babá, disse que nunca teve muitos transtornos com a passagem de carros de som nas ladeiras, mas defendeu um ordenamento para garantir a circulação e todas as agremiações. "Minha opinião é que eles não atrapalham. Agora, acho que deveria ter os horários definidos e ser feito um corredor para eles, à beira-mar ou, ali embaixo, na [Avenida] Sigismundo Gonçalves, no Varadouro", declarou. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias